• Abril 25, 2026

“Começámos o 25 de Abril no dia 23”, recorda Sousa e Castro, Cap. MFA, em Paredes

“Começámos o 25 de Abril no dia 23”, recorda Sousa e Castro, Cap. MFA, em Paredes

Testemunho raro sobre o 25 de Abril marca sessão em Paredes

A Biblioteca Municipal de Paredes recebeu, no passado dia 20 de abril, uma palestra do Coronel Rodrigo Sousa e Castro, dedicada à reflexão histórica sobre o 25 de Abril de 1974. Natural de Celorico de Basto, o militar desempenhava funções como Capitão no Quartel de Cascais à data da Revolução dos Cravos, integrou ativamente o movimento que viria a derrubar o regime.

Texto | António Orlando

Num testemunho na 1.ª pessoa desse período decisivo da história portuguesa, o Coronel Sousa e Castro, contou que “no dia 23 de abril de 1974, às seis horas da tarde, aqui o rapaz capitão José Castro estava sentado num banco de jardim do Parque Eduardo VII (…) éramos oito oficiais de ligação (…) começamos o nosso 25 de abril no dia 23, à noite”. Explicou ainda o papel dessa equipa na articulação entre unidades militares, destacando a importância da antecipação e da coordenação no terreno.

Recordando a distribuição de instruções pelos quartéis, relatou: “Cada um de nós tinha um conjunto de quartéis onde tínhamos as nossas ligações (…) e então eu fui um dos oito oficiais de ligação”. A missão levou-o ao Norte do país, numa deslocação exigente e marcada pela urgência: “Arranquei às seis da tarde (…) não havia autoestrada (…) e podiam ter havido acidentes…”

O Coronel descreveu também episódios concretos dessa jornada, como a entrega de documentos e contactos com outros oficiais: “Entrei num café (…) pedi um café ao balcão, saí imediatamente (…) e dei os documentos para a Figueira, para Viseu e Guarda”. Em vários momentos, sublinhou as dificuldades logísticas e a necessidade de improviso: “Não havia telemóveis (…) havia uma coisa chamada cabine telefónica”. Foi assim que conseguiu falar com um contacto que vivia no 3.º andar de um edifício na cidade do Porto que tinha o intercomunicador avariado.  “Como é que resolvi…olhei para o lado e vi uma cabine telefónica”, recordou.

“Não há outro exemplo de um exército que se revolta contra uma ditadura e não fica com o poder”.

No plano institucional, o Coronel destacou o papel histórico do Conselho da Revolução: “Foi o órgão coletivo com mais poder em Portugal em toda a sua história (…) as leis todas tinham que passar pelo Conselho da Revolução”.

Assumindo o peso da responsabilidade dos militares, Sousa e Castro deixa críticas e assume “mágoa” relativamente ao reconhecimento do papel dos protagonistas do 25 de Abril: “Sabe quantos oficiais foram convidados para a cerimónia? Zero (…) isto é uma mágoa que nos acompanhará até ao fim”. Ainda assim, defendeu a singularidade da revolução portuguesa no contexto internacional: “Não há outro exemplo de um exército que se revolta contra uma ditadura e não fica com o poder”.

A intervenção incluiu também reflexões sobre o período pós-revolucionário e os desafios da transição democrática, nomeadamente o funcionamento do Conselho da Revolução e o cumprimento dos compromissos políticos: “Vieram dizer que era preciso libertar o país da tutela militar (…) quando aceitaram um pacto inserido na Constituição! Não houve ditadura de metade esquerda. Houve um período de transição. De quatro anos, que não foi respeitado por os deputados”. Sobre o 25 de Novembro de 1975, classificou-o como um momento de reajuste interno: “Foi um ajuste de contas entre militares (…) o poder político não se alterou. Não houve ditadura de metade esquerda. Houve um período de transição. De quatro anos. Que não foi respeitado pelos deputados”.

Sobre o julgamento dos elementos da polícia política (PIDE), sublinhou os princípios de justiça: “Os democratas não têm o direito de aplicar aos PIDE o mesmo tipo de tratamento que eles aplicaram”, ressalvou.

Descolonização

Um dos temas centrais da palestra foi o processo de descolonização, que o Coronel enquadrou como inevitável e global: “A descolonização era o objetivo político do movimento, mas não era só de um movimento: era da humanidade. Não foi apenas um projeto português, mas um movimento internacional impulsionado desde a década de 1950 por diversas nações e organizações, incluindo as Nações Unidas. O único que estava contra era Salazar e o seu primeiro ministro”.

Questionando críticas recorrentes, lançou a reflexão: “Como é que se faz uma descolonização depois de 13 anos de guerra? (…) É muito fácil dizer que foi mal feita”.

Durante a sua exposição, destacou os resultados alcançados apesar das dificuldades: “Conseguimos duas coisas (…) uma certa pacificação (…) e depois conseguimos relações com as nossas ex-colónias”. Sublinhou ainda o carácter inédito de iniciativas diplomáticas no período pós-revolução: “Não há nenhum exemplo no mundo disto”.

Outro ponto relevante foi a referência à operação de evacuação das populações das ex-colónias, considerada pelo próprio como um feito histórico: “Foi a maior ponte aérea do mundo, feita até à data (…) ninguém que quisesse vir das colónias, ficou nas colónias”. Enfatizou também o papel das Forças Armadas nesse processo: “Quem fez essa ponte aérea? Os militares”.

O Coronel abordou igualmente o contexto da guerra colonial e as dificuldades no terreno, sobretudo na Guiné, onde a situação militar se agravava: “Nós estávamos numa situação muito difícil de perda do controlo sobre o território, não conseguimos nem debelar a guerrilha, nem controlar a população”.

Referindo-se ao contexto político anterior ao 25 de Abril, mencionou tentativas de negociação rejeitadas pelo regime: “O Salazar disse que não”. Sublinhou ainda a inevitabilidade do desfecho: “O tempo trabalha sempre a favor da subversão”.